quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Passarinha (ou canteiro de papoulas)

Dedicado à uma flor de longas asas e lindos sonhos 

Epílogo


Tento descoser os dedos para desenhar-te
Na sombra crua das palavras
E hesito:

Nem mesmo a terra pode germinar a tua leveza na poesia das árvores.

Trêmula, a mão continua em risco:

Bailam tuas pernas sob as minhas folhas
 Escorrem teus fios enraizando o movimento oculto
E ouço na lacuna do verbo seus cílios em comunhão com os ventos...

... Mas nego a metáfora...

Antes, é preciso benzer o verso em brasa sussurrada para encantar seu cheiro no ocaso do mundo...

Calando as mãos sinto:

[A impossibilidade de cantar-te mora na vogal que sozinha exclama toda a seiva que escorre de teu corpo]



Passarinha (ou canteiro de papoulas)

       Voava. Suas largas asas ainda circundavam todo o terreiro da infância. E que ventarosas asas tinha. Planavam calmas sob seu céu e, como num arrepio, tornavam a bater brincantes entre as folhas de seu pomar - que começava a amadurecer frutos primaveris. Um haikai solto no barulho do vento, nas águas jorradas da fonte raiando os fios do sol. Era ela inteira uma flor selvagem. Semente úmida, descamando os sonhos no seio da terra, germinado os segredos numa vaga fluidez: genuinamente humana. Voava. Espirando as palavras certas de mais para serem vivas, inspirando o silêncio dos morros pastoris, equilibrando e subindo em espiral seus caminhos sinuosos. Pulsava. Dentro dela ritmava com cuidado o eterno giro das coisas. Sentindo pela brisa o movimento corrente da vida. E voava em círculos... Seu espírito, como um alazão arredio, dominava os campos e trotava variando sempre o ritmo e a direção dos seus desejos.  Queria beijar a noite, dançar com o tempo, amar com as chuvas e deitar seu cansaço curioso nos braços do mundo. Toda a sua feitura, todo o seu contorno possuía cores intensas. Um universo inteiro equilibrando-se entre a inocência e a loucura. Doce gosto sentia na boca quando provava nos frutos o erro; quando sentia na pele o sopro misterioso de ser antes mesmo de saber-se. Voava sobre si mesma entoando sozinha a sinfonia emudecida que compunha a partir das dúvidas. E fazia dessa mudez um regalo: a perfeição perdida. Mesmo sem saber, percebia que tudo era início e que para si havia apenas um destino: o das aves e dos rios. Então voava. Batendo suas asas. E ia. Descortinando os mistérios do chão já semeado, abrindo com os dedos os lares fechados, povoando os ninhos e as varandas de afeto. Voando, ia. Dançando cigana a meninice de seus olhos, mentindo o firmamento dos céus e das lendas, tecendo e destecendo com destreza os seus próprios véus. Voava, para si e para os outros, as suas próprias lonjuras, sentindo o frio tocar-lhe o ventre e as lagrimas inundarem o rosto, mas ia. Passando, vivendo, tocando o avesso dos dias, ia. Por baixos-relevos plainava, arriscando suas certezas com uma doçura pagã. Voava e apenas voava. Querendo do Nada o Todo e do Todo apenas o gosto das coisas. Voava, leve e alada os sonhos, as noites e o medo. As sombras, as luzes e os jardins. Os nomes, as vidas e as casas. Era ela inteira o vôo e com dedos de menina, com olhos de menina, movendo para os céus os seus dias de cera e os seus canteiros de papoulas...  

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O SECRETO


                                                                                        à um grande amigo de estradas.


Rio adentro. Sendo nau e proa navegando a si mesma. De tudo queria o maior dos segredos. Vento que movia os silêncios, deitando sobre a imensidão das terras e das águas.
Fez-se de uma solidão grave, dessas de cortar o nó das cordas. Sentada à janela de si, se deixava passar sobre as coisas que de dentro não cresciam. E feito um balão colorido subia céu acima – lentamente - fecundando a barriga do mundo. Sua vida ofertava-se em trançadas teceduras. Trabalhava seus longos dias em demoradas urdiduras, mas antes de render-se aos encantos do belo tecido, desfazia suas tramas em harmoniosos terreiros: deixando correr, pela parte e pelo todo, pés descalços de crianças sonhadeiras:
                   “Não fascine seus olhos, deixe-os soltos em roda!”
Aconselhava-se por saber que da Verdade muda do desconhecido sabemos quase pouco.
Quem a olhava não podia ver: de tudo queria ao contrário e desnomeava, o que vivo, aparecia nos caminhos. Até Pedra. Até Pensamento. Soube durante muito tempo pronunciar cada alcunha com uma naturalidade vivaz. Devagar é que as palavras foram se arrevoando em sua aurora, como febre que desfaz o prumo em arrepios. Sentia mais que fazia e sem perceber, foi sendo tomada por uma gagueira branca de quem perdeu as certezas da vida. Desde que fora abandonada pela segurança que faz do caminho destino, agarrou-se ao interdito e partiu: desatentando, desfazendo, desenrolando o fio das coisas.
                         “Há curiosidade movedora? Movediça.”
Talvez essa fosse a sua única certeza e como se buscasse consolo punha-se a caminhar: sempre em frente, sem olhar para trás...
Naquela manhã, o céu ameaçava chuva. Mesmo assim, decidiu ir à praia. A extensa faixa entre o asfalto e a espuma se deixava ver na simplicidade do então: orla cheia. Mulheres e homens. Crianças eriçadas feito pipa. Tudo de todo modo comum. Mas não era essa trivialidade e repetição que a atraia. Aos seus olhos, existia algo de mágico nos desejos que se delineavam à beira do mar: as areias labutando com o concreto diluíam, pouco a pouco, em novos desenhos, o embolado de pessoas-ligeiras que demasiadamente atentas. E devolvendo cores ao que jazia do mundo encontrado demais para o erro, a praia talvez fosse o único lugar onde ainda poderia salvar-se de si mesma.
... Ah, o erro! Era nele que arguia o sentido de sua existência. De alguma maneira percebia que a grandeza da vida escorria pelas fendas do cotidiano e se mostrava nas falhas - O Miraculo. Aproximar-se das águas e caminhar sob os barulhos do vento era também aproximar-se de sua essência. Buscava perder-se no tempo, arrependendo futuros passados: Seus sobrados olhos deixavam para trás, todo o trecho onde os prédios faziam frios retratos... E ia, peregrina: desacertando o lugar onde o relógio lhe marcava a pele - Afundando seus pés na areia - entornando Alma e nascendo a cada passo - fixando (com c’alma) feito memória – durando suas marcas pelo caminho...
Há pouco o céu tinha firmado sol. O calor liquefazia incomum em miragens. Não tinha o costume de inverter seu caminho, mas algo a chamava insistentemente pelas costas. Absorta, resistia aos apelos e continuava andando com os olhos fixos no horizonte. Via a extensão da orla marcada pelo pesar dos edifícios. Via ao fundo o início da restinga: era lá que passava as tardes mergulhada nas leituras de seu livro preferido: buscando baleias ao mar. Ler era o seu jeito de não estar só. Nada poderia descrever o prazer que sentia quando inabitada de gentes e cidades, perdia-se pelas estórias que não eram uma... Mas o estranho calor que sentia na nuca, enfadava seus pensamentos e Inundava - feito mar - seu corpo em suores e cansaços que secavam a boca. Quanto mais caminhava, mais se alongavam as distâncias do desvio ansiado. Seu corpo persistia sem forças. Por que tudo parecia mais atrás que o de costume? Experimentou apontar-lhe os joelhos. Estavam moles e giradiços, tombando o peso das pernas. Tentou dar ânimo ao corpo, mas estranhamente não conseguiu. Era o calor, só podia ser o calor. Nunca havia sentido tamanho mal estar, ao menos não se lembrava de algo parecido. Mas não podia sentar, precisava antes alcançar vôo e tocar no avesso do mundo. Precisava manter o caminho....
Por um segundo, provou de uma incontrolável vontade de jogar-se nas águas, entregando seu sal para purificar os sentidos. Mas antes mesmo de tentar, rendeu-se ao sul. Seu corpo se espantou em vertigens: mal podia acreditar no que só ela via...
E a curva.
Sempre ia à praia com seus pais, barraca de sol, canga, isopor, filtro solar, irmão, cachorro e boné. A menininha guardava em seus olhos bisbilhoteira vontade. Enquanto todos faziam as mesmas coisas, ela tão pequena, sentia o mundo pelas mãos. Seu destino era se achar a cada pergunta e se perder a cada resposta. Feito uma abelhinha que de toda flor beijava o mel e de tudo queria saber mais que o nome:
_Mamãe, issozinho qui, é o que?
_ É o seu umbigo filha.
_Imbigo? E puique ele ta aqui no meio?
_Ah filha, porque ele ligava a sua barriguinha na minha por uma corda que estourou quando você nasceu.
_E puique ela estoiou mamãe? E deixou um fuio? Imbigo devia chamá fuio, num é? Ou buiaco? Eu num queia que a coda estoiasse mamãe. Qeuia ficá com você pa sempe!
Como desejava um mundo que fosse só seu: onde as palavras dissessem o sonho e que manga fosse só a de comer... Nunca brincou como as outras crianças. Nasceu para miudezas. Podia passar horas observando o cupinzeiro que fazia mosaicos barreados, no muro da casinhola onde morava. às vezes, metia um furo com o dedinho gorducho no serpentiado caminho de terra, pó e poeira: Fiz um imbigo em você! Ponto! Agoia você já pode nasce! E assim ia acendendo sua chama, branda e azualada. Fogueira de monte e lenha grossa - tora de lei.
No caminho para a praia, que ficava a alguma distância de onde morava, a chuva banhou o céu mal tocando o chão. Servindo apenas para deixar as vistas um manadeiro arco-íris. E o mundo que se mostrava pequeno tomou gostos por infinito. A menininha, que era de uma atenção encantada, nunca vira antes algo tão bonito. Ligeira, pôs logo os seus olhinhos de formiga vidrados na janela que cantaram toda nata e nota. Seu corpinho gorducho foi tomando cores, apaixonado e trêmulo pela primeira vez:
_Mamãe, qui isso nu céu?
_Que lindo filha, é um arco-íris.
_Mamãe, onde ele moia?
_Nas nuvens, filha. Ele fica lá escondidinho e sempre que chove ele vem brincar com o sol. Ele é filho do céu.
_Mamãe, eu queio i lá binca com ele.
_Nós vamos, filha. Ta vendo onde ele termina? Lá é a praia. Quando chegarmos lá você brinca.
A menininha se transformou em esperanças e sonhosidades. Era tanta imagem sem nome, tanto nome sem coisa que o seu corpinho se confundiu e adormeceu. Também adormecera o arco-íris, desluzindo aos poucos suas cores no céu...
Quando chegaram à praia a menininha tagarelou em procuranças. Mal podia acreditar que a mãe havia mentido pra ela. Olhava para todos os cantos do céu. Vasculhava, sem pular uma, todas as nuvens que ainda estavam por perto, mas não achava o arco-íris:
_ mamãe, cadê eie? Cadê eie, mamãe? eu já pocuiei em tudo, tudo, tudo. Tudo, tudo, tudo, mas não encontei!
_ Filha, ele deve estar escondido atrás do morro. Ou então ele desceu para brincar com você. Daqui a pouco ele aparece.

 Foi quando a menininha resolveu avistar olhos para o chão. E como mágica, timidamente, um pedacinho de verde brilhou para ela na areia. E depois um laranja se mostrou. E um amarelo. Mal podia acreditar: Era o arco-íris! Tinha certeza! Devia estar escondido inteirinho por debaixo da areia. Sem tropeçar nos pensamentos correu para puxá-lo pelas pontas. Mas quando chegou mais perto viu que ele não estava escondido: estava quebrado! Partidinho em mil bocadinhos e cacos. Esperta como bico de mergulhão, não demorou em perceber o que tinha acontecido. O arco-íris devia ter arrebentado inteirinho quando desceu do céu para brincar com ela. Precisava então juntar suas partes. E sem que a mãe percebesse, ela saiu em marcha, catando os pedacinhos cilíndricos...
E a curva.
Havia algo de familiar naquela menininha... Tão pequena e tão perdida. Vestida só com a calcinha do biquíni, que era rosa no centro e nas laterais babadinhos verde-musgo, vinha sorrateira em sua direção. Tinha uma franjinha que caia sobre os olhinhos, espremidos entre a testa pequena e as bochechas coradas de sol. Gordinha e deliciosamente encantada, estava, entre todos os prazeres da praia, catando canudinhos. A menininha, não queria castelos de areia ou nadar, não queria picolés ou futebol, queria os esquecidos canudinhos de plástico, já usados e baldios. As mãozinhas estavam tão cheias que mal conseguia se equilibrar para pegar mais um.
Seu corpo desacreditava os sentidos... Imediatamente se reconheceu em espanto. Mas como poderia ser? Ainda em susto, foi se aproximando lentamente da criança, como se estivesse indo ao seu próprio encontro: remarcados pés sob antigos caminhos... Perto o suficiente, organizou a voz que sumira e perguntou:
_ Está perdida?
_ Eu to pocuiando o arco-íris pá devolve po céu.

           Seus ouvidos fizeram eco. A voz saia de dentro de si. Os joelhos desentenderam-se de certo caindo tortos sobre as areias. Seu corpo embaraçava. O barulho do mar girava os ouvidos e ardia nos olhos. Era inteira Sal. Os braços enrijeciam, e antes que petrificassem, estendeu suas trêmulas mãos ao encontro da menininha. Mas não conseguia tocá-la. Os dedos duros rondavam o rostinho que fora o que será e que seria o que é. Medrosamente fechou os olhos, alcançando a testinha esquecida. E com cuidado, retirou a franja melada de sol e sal dos olhinhos da curuminha. As duas sorriram. E o mesmo brilho. E o mesmo dentinho quebrado. E a mesma praia. E o Tempo...
Tudo fugia para dentro. Mar batendo forte contra a rocha das lembranças. Queria o Mundo dizer. Queria à menininha tomar nos braços e levar para casa, alimentar a boca e cuidar dos sonhos. Mas não conseguia: estava petrificada.
                    Por que era proibido olhar para trás?
A menininha, que admirava o mundo com as mãos - e as mãos cheias do arco-íris que caíra do céu para brincar – ficou triste ao vê-la chorar:
_num choia não. Ele vai fica bom!
_Sim abelinha, eu vou ficar bem!
Seus olhos alagados cerravam a cada palavra da menininha. Mas tanto amor devolvia-lhe algum movimento. Com cuidado pôs-se a abrir as mãozinhas gorduchas. De dentro, pegou os canudinhos. Em seguida, abriu o livro no meio e colocou-os. Depois pousou o livro no chão. Com delicadeza sentiu, nas suas, as mãozinhas tão pequenas. E com todo o afeto que existia por dentro, beijou as palminhas descalejadas:
_Sonhe meu amor. Sonhe com intensidade e do mundo ache tudo. Você vai ver, há muito o que cuidar nos caminhos, a começar pelo arco-íris...
_você sabe cunsetá o dodói dele?
_São pedacinhos de ternura. Só com carinho que se cola cada um deles. E isso leva tempo meu amor. Tudo que quebra só colamos com belezas que encontramos aqui dentro. E você é a maior delas. [como me esqueci de você]...
A curuminha ouvia tudo atentamente. Parecia que sabia... Parecia adivinhar... E o mesmo nariz. E a mesma manchinha no pescoço. E o mesmo lugar. E o Tempo...
Um beijo da menininha se fez correr sobre sua pele, sobre seu arco, sobre seus arredios pensamentos. Ainda ajoelhada e de olhos fechados, levou as mãos até o beijo. Sentiu uma imensa doçura e uma enorme vontade de abraçá-la. Mas não a viu mais. A pequena havia sumido porque o relógio não parou de contar.
Era uma descoberta?
A vida se mostra no eterno instante do erro.
Nada podia lhe dar mais do que aquela dormência muda do Ser experimentada num breve encontro... Um presente. Dominar suas forças, que comprimiam no peito todas as vozes do mundo, tornou-se impossível. Exalava por todos os poros, o que nem Amor podia dizer. Como viveria dessa estranha substância que se apresentava fora do tempo, e que, no instante insurgente castrava a linguagem castradora?
Durante anos, buscou em tudo a contradição que lhe amordaçaria os sentidos, para Integrar-se por inteira à matéria-mundo, mas só conseguiu quando não sabia: se-encontrando-se-perdendo. Poderia ficar eternamente Habitando esse lugar inexistente, porque incompreensível. Mas voltou. Sempre voltava para si quando o descobria. Existia demais para o ato da entrega. Na sua feitura ainda havia em abundância a frágil palavra. E desconfiava: precisava se transformar na própria mentira para viver. Silenciando para sentir...
Abriu os olhos. Por fora, tudo continuava igual. E lentamente, seu corpo foi recuperando consciências. Estava novamente no mesmo lugar, de onde nunca havia saído. Nas mãos ainda o mesmo livro, agora, amarelado [e dentro os canudinhos]. Aprumando o norte - continuo caminho, prosseguiu no andar. Fazendo de novo estrada para o céu - em cores e águas. E o sol. E a força. E a vertigem:
A curva.
Como um milagre, avistou uma mangueira, que solitária guardava os segredos do chão. Seus olhos maculavam. Era a árvore entre os edifícios. Deitou sobre suas raízes, infanta e emocionada. Frondosa e inteira sonhou sonhos impossíveis sob suas folhas. Ali, em um raro lugar onde a vida nascia urgente...
                  Sou o maior segredo do mundo! Meu alimento é o mistério.
E ninguém nunca mais poderia enxergar o seu abismo.

domingo, 5 de outubro de 2014

Amanhe`Cida

Amanhe'Cida


Aparecia. Aparecida mulher. Nossa? Senhora: de si. Ainda era ela no espelho. Reconhecia em seus olhos o mesmo brilho: sua íris menina brincava joeirando no terreiro, de pés no chão e laço de fita, semeando entre os cotovelos punhado de vida. O sorriso estendia-se sobre as coisas do mundo aveludando toda superfície. Ainda estava ali, mas sumida: guardada como um livro de poemas que esquecido, nos esquece – cacifo - por dentro. Estava ali -  relicário valedoiro - tão bela, mas polverosa. Suas mãos mudas, murtas, muitas seguravam seus sonhos queixosos. E o caminhar continuava perene, caduco, enternecido. Já não queria mais serenata. E já não sabia mais – acrobata - viver a leveza de aurora outra. Outono? Vivia de regar: irrigando florificado jardim, embebida em recôndito e maternal amor. Rebento. Era toda ela mãe: bordados e suturas da Devoção. Feitura de segredo: guardava-se para si mesma e dava-se apenas em socorro. Não se via, tinha jeitos severos consigo mesma. Precisava harmonizar seu presente. Tudo era destino em seu horizonte glorificado. Não podia para trás: há dias antes? Adiante. Se o tempo ia, ida esquecia-se da Criança que fora... tornando a sê-la. E criança outra vez, amava sua consumida palidez dos tempos presentes: cantiga de ninar.  Fruto maduro de polpa doce e fresca permanecia jovem ...Encantadoramente. Sempre Primavera, era toda cadente: candeia. Cantavam para ela suas flores, mas ela permanecia oculta, calando seus segredos: estava sozinha. Gostava de ser só: como companhia apenas o céu – réstias de caminho já iniciado e continuamente aberto. Deitava-se no terraço do Ser e de olhos fechados inscrevia em seus fios sua esperança para entregar às três Marias: Turmalina, Ivalina, Coralina. Fizera e refizera durante toda a vida seus regalos, dormindo sob manto salpicado esperando amanhecer. E amanhecia, Tantas e tantas manhãs. Umas com chuva, outras de verão. E fazia a cama e o café e o não. E a manteiga e o pão e o sonho. Amanhecia. e o pescoço, e a boca, e as dores nas costas. E ouvia chamar a bravura e a coragem. Amanhecendo: esticando seu corpo entre o sol e o chão. Abrindo, rompendo, rasgando o todo de si, abraçando-se ao mundo: profundo. desmundo. vislumbro. Amanhecia... Apenas amanhecia: um marco. E Aventurava-se e tinha vontade de ficar. Amanhecia...  Raiando o início e a alvorada... Amanhe'Cida.


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

ENGARRAFAMENTO


Ia sem rumo. Com vestido leve pelo meio da avenida. Enfrentava os carros com os pés descalços na contramão. Era seu corpo, dormente, que caminhava. Estava viva?
Lembrou a madrugada. Assustou-se. Lembrou a infância e o amor que deixou morrer. Suspirou profundamente sua falta de certezas. Estava esgotada. Os carros roucos machucavam seus ouvidos confusos, imprimindo nela um estranho estado de transe e dispersão. Não se concentrava em sua dor. Nem ao menos sabia a origem. Mal podia se enxergar no meio de tantas luzes, sons e memórias. Sentiu uma dor intensa no estômago. Abandonou-se curvada sobre o ventre vazio. Por um instante lembrou que não havia almoçado naquele dia. Também não conseguira se alimentar no dia do batizado de seu filho. A imagem austera do padre e o agudo choro da criança que aprendera a amar pouco-a-pouco ocuparam intensamente seus pensamentos. Negou-os. Lembrou da louça que não havia lavado antes de sair de casa. O calor-exausto dos motores ligados sufocavam seus sentidos. Um homem careca e de bigodes, que estava com o braço esquerdo para fora da janela, enfiou a mão entre suas coxas desnudas, assediando-a, assim como cotidianamente são assediadas as prostitutas de esquinas desgracidas. Maluca! – Gritavam para ela. Seu corpo não sabia reagir, queria se defender, mas não tinha forças. Só conseguia caminhar, arremessando seu corpo de qualquer maneira entre os carros inertes. Embriagada e lúcida, o que sentia não era a dor dos que desistem. Ao contrário: estava grávida do mundo. Sua boca que jazia entreaberta deixou dançar em sua língua o gosto da cidade. Respirava fundo, aspirando para dentro de si o que não entendia. Passeava o dorso das mãos empoeiradas pelo rosto, comprimindo as bochechas, esfregando a testa, limpando os lábios até achar, no alto da cabeça, a origem de seus cabelos oleosos e embaraçados. Agarrava-se neles. Queria gritar, mas não conseguia. Lembrou do gato atropelado que vira, certa vez, no acostamento de uma rodovia durante uma viagem que fez a Santiago do Chile. Buzinas estrugiam por todos os lados. Estações de rádio e vozes surdas se espalhavam ao redor de seu corpo cansado. Suor. Poeira. Muito calor. Não prendia a atenção em nada que estava fora de seu corpo. Tudo era apenas dentro dela. Gestava suas próprias impressões do que é vivo. Criava suas imagens e gostos natimortos, mas cheios de beleza e ternura. Á-gua, Ó-lha a á-gua: gritava o menino, com um isopor dipindurado nos ombros, que caminhava na direção contrária a dela. Esperança. Desesperança. Sentia muita sede, mas sequer ouviu a voz repentiada do vendedor ambulante. O céu roseava, sonâmbulo o dia cansado. Lembrou do algodão-doce que dividiu com uma senhorinha, certa vez, na praça de sua cidade natal e da cana-de-açúcar plantada no quintal da casa de sua mãe. Uma moto que cortava ligeira, precisa e sinuosa as filas-metálicas-de-fumaça quase a atropelou. Caiu de joelhos. Os faróis a ameaçavam, cegando seus olhos molhados. Irritados e perdidos ... Retilíneos olhos cheios. Os carros engarrafados desafiavam sua força. Duros e aferrados eram a representação perfeita de seus monstros... de suas dores. Lembrou-se de Castorp  e de suas perguntas desconcertantes. Malditas! Ela gritou - conseguindo retomar o controle de seu corpo pela primeira vez desde que abandonara seu carro. Malditas! Repetia ajoelhada entre as rodas. Vendada pelas luzes que iluminavam caminho sinuoso, foi voltando, trôpega, para seu estado de transe. Tentava reorganizar-se. Mas como? Se era, ela mesma, o próprio silêncio. O mais profundo e aterrador. Não sabia mais encontrar sentido para seus pés. Continuou perdida entre suas memórias, queria reencontrar de maneira desesperada a ponta do fio que ligava seus sentidos as escolhas do mundo. Estava estafada. Não podia mais lutar consigo mesma. Sabia que nunca entenderia suas escolhas. Sabia que havia se distanciado demais das palavras. Não queria mais pensar. Era agora refém do mundo que significara para si mesma, numa tentativa de salvar-se do inóspito mundo que não soube acolhe-la. Ouvia cada vez mais perto o canto das sirenes. Se alguém pudesse olhar de cima, veria o baile de luzes, que espalhavam-se à esquerda e à direita, abrindo caminho para a primeira bailarina. No chão, continuava trêmula, silenciosa e preenchida de amor. Amava profundamente o inóspito. Queria amamentar em seus seios todos os seres e adocicar-lhes o ventre com o que tinha de mais vivo dentro de si: a compreensão ... Sentiu que braços fortes suspendiam seu corpo. Olhou para cima e viu rostos curiosos emoldurados por uma enorme caixa branca. Sorriu. E como se dela mesma nada pudesse, deixou que seu corpo fosse enjaulado. Trancafiado na caixa branca. Deitada e ainda confusa com a claridade da ambulância, sentiu-se imensamente segura. Sabia que não existia tempo, não existia sofrimento ou ferida que a pudessem matar. Andou sem medo pelo meio da avenida. De corpo e alma desnudada buscando, de si, liberdade desmedida. Andou por muitos corpos,  sonhos e desejos. E por um segundo percebeu que seu único crime era o seu segredo: do mundo carregar um jeito de querer em demasia.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

VENTO SANTO

VENTO SANTO 09/09/2014
Nove horas da manhã. Arrastei meu corpo entorpecido até o quintal. Os ossos doíam, gelados, a noite mal dormida. Palpei os cigarros que estavam sobre a cabeceira da cama e ainda com as meias de dormir nos pés, estendi pano na grama para ler a Montanha Mágica. Domingo. Sentia no ar o cheiro da galinhada fervilhando na panela de barro em cima d'um avizinhado fogão à lenha. Traguei intumescida, o cigarro recém-aceso, expandindo e expulsando no sopro ocre do tabaco minhas banalidades. Abri o livro e busquei me concentrar. Alheada, ouvi vozinha trêmula e bastante firme: Dia! Logo percebi que tratava-se de dona Filomena divagando pelo jardim. Educadamente levantei os olhos do livro retribuindo o cumprimento com um sorriso e um aceno de mão. Minha saudação serviu de consentimento. Ao sorrir tinha selado um acordo, um pacto, aceitando o convite que ela havia acabado de fazer quando me cumprimentou: prosear. Fiquei observando seus passos dificultosos e perenes em minha direção. Quando bem pertinho carinhosamente repreendeu-me: ô fia, feche as janeias que hoje é dia de São Bartolomeu. Olhando para cima, ainda com o sorriso no rosto perguntei: É mesmo dona Filomena, por quê? – meu sorriso já não era uma cortesia. Estava fascinada, hipnotizada pela certeza que preenchia os meus pulmões dormentes: não fazia ideia do que ganharia, naquele segundo encantador, como presente e como resposta. Ué fia - ela respondeu - dia de São Bartolomeu é dia de tempestade de vento, se você deixá tudo aberto é capaz de caí até as paneia de cima do fogão...
Dona Filomena contou-me ainda que a procissão sairia as três horas da tarde do quintal de seu Juca e seguiria até a igrejinha destinada ao santo. Aconselhou-me. Disse que eu não deveria deixar de ir. Alisando com as mãozinhas calejadas seus lisos e ralos cabelos brancos ainda falou: fia, se eu ainda tivesse perna ia cocê caminhando na procissão, mas a igreja é longe demais e eu num aguento mais não. Minha neta mais veia, vem buscar eu de carro pra levar pra missa. Encontro com ocê lá! Dona Filó ainda desabafou sobre as preocupações com Tupi, seu cãozinho. Disse não saber mais o que fazer para impedir que continuasse comendo as galinhas, mas que ia acender uma vela pra São Bartolomeu pedindo a graça. E depois desses minutinhos de prosa ela foi se afastando devagar. Apertando contra o corpinho miúdo e arqueado os braços cobertos pelo casaquinho lilás todo bordado, olhou-me ainda pela última vez. Uma brisa havia acabado de tocar seu rosto e apontando o dedo para o céu, como se fosse versada nas mais antigas artes da aeromancia, profetizou: Òia fia, ano passado a procissão saiu daqui, então é por aqui que o vento vai começa, ocê sentiu? Já começou... vai logo fechar as janeia.

E ventou. Ventou forte. crismando a força das palavras da senhora benzedeira. Ventou. Primeiro dentro de mim. Dona Filomena deu-me de presente, sem saber, a novidade que silencia. Que retira a poeira dos ouvidos e do estômago. Que faz do dia-a-dia a poesia. Depois ventou no quintal fazendo dançar as folhas das bananeiras preguiçosas e latir a esmo, o Tupi. Ventou também dentro da casa, embolando os tapetes, derrubando os quadros, batendo as portas e janelas em sinfonia desritmada. Vento. Devoto da sabedoria, beato da doçura, ventando no puro estar aí. Vento-santo que cantou novena no meu pranto e beijou-me os olhos remansados. Vento-benzedor, ventando desafinado ensinando: que viver é nascer flor. Incerta. Amor na certeza do mais divino...