domingo, 5 de outubro de 2014

Amanhe`Cida

Amanhe'Cida


Aparecia. Aparecida mulher. Nossa? Senhora: de si. Ainda era ela no espelho. Reconhecia em seus olhos o mesmo brilho: sua íris menina brincava joeirando no terreiro, de pés no chão e laço de fita, semeando entre os cotovelos punhado de vida. O sorriso estendia-se sobre as coisas do mundo aveludando toda superfície. Ainda estava ali, mas sumida: guardada como um livro de poemas que esquecido, nos esquece – cacifo - por dentro. Estava ali -  relicário valedoiro - tão bela, mas polverosa. Suas mãos mudas, murtas, muitas seguravam seus sonhos queixosos. E o caminhar continuava perene, caduco, enternecido. Já não queria mais serenata. E já não sabia mais – acrobata - viver a leveza de aurora outra. Outono? Vivia de regar: irrigando florificado jardim, embebida em recôndito e maternal amor. Rebento. Era toda ela mãe: bordados e suturas da Devoção. Feitura de segredo: guardava-se para si mesma e dava-se apenas em socorro. Não se via, tinha jeitos severos consigo mesma. Precisava harmonizar seu presente. Tudo era destino em seu horizonte glorificado. Não podia para trás: há dias antes? Adiante. Se o tempo ia, ida esquecia-se da Criança que fora... tornando a sê-la. E criança outra vez, amava sua consumida palidez dos tempos presentes: cantiga de ninar.  Fruto maduro de polpa doce e fresca permanecia jovem ...Encantadoramente. Sempre Primavera, era toda cadente: candeia. Cantavam para ela suas flores, mas ela permanecia oculta, calando seus segredos: estava sozinha. Gostava de ser só: como companhia apenas o céu – réstias de caminho já iniciado e continuamente aberto. Deitava-se no terraço do Ser e de olhos fechados inscrevia em seus fios sua esperança para entregar às três Marias: Turmalina, Ivalina, Coralina. Fizera e refizera durante toda a vida seus regalos, dormindo sob manto salpicado esperando amanhecer. E amanhecia, Tantas e tantas manhãs. Umas com chuva, outras de verão. E fazia a cama e o café e o não. E a manteiga e o pão e o sonho. Amanhecia. e o pescoço, e a boca, e as dores nas costas. E ouvia chamar a bravura e a coragem. Amanhecendo: esticando seu corpo entre o sol e o chão. Abrindo, rompendo, rasgando o todo de si, abraçando-se ao mundo: profundo. desmundo. vislumbro. Amanhecia... Apenas amanhecia: um marco. E Aventurava-se e tinha vontade de ficar. Amanhecia...  Raiando o início e a alvorada... Amanhe'Cida.