Dedicado à uma flor de longas asas e lindos sonhos
Epílogo
Tento descoser os dedos para desenhar-te
Na sombra crua das palavras
E
hesito:
Nem mesmo a terra pode germinar a tua leveza na
poesia das árvores.
Trêmula,
a mão continua em risco:
Bailam tuas pernas sob as minhas folhas
Escorrem teus
fios enraizando o movimento oculto
E ouço na lacuna do verbo seus cílios em comunhão
com os ventos...
... Mas nego a metáfora...
Antes, é preciso benzer o verso em brasa sussurrada
para encantar seu cheiro no ocaso do mundo...
Calando
as mãos sinto:
[A impossibilidade de cantar-te mora na vogal que
sozinha exclama toda a seiva que escorre de teu corpo]
Passarinha (ou canteiro de papoulas)
Voava. Suas largas asas
ainda circundavam todo o terreiro da infância. E que ventarosas asas tinha.
Planavam calmas sob seu céu e, como num arrepio, tornavam a bater brincantes entre
as folhas de seu pomar - que começava a amadurecer frutos primaveris. Um haikai
solto no barulho do vento, nas águas jorradas da fonte raiando os fios do sol. Era
ela inteira uma flor selvagem. Semente úmida, descamando os sonhos no seio da
terra, germinado os segredos numa vaga fluidez: genuinamente humana. Voava.
Espirando as palavras certas de mais para serem vivas, inspirando o silêncio
dos morros pastoris, equilibrando e subindo em espiral seus caminhos sinuosos. Pulsava.
Dentro dela ritmava com cuidado o eterno giro das coisas. Sentindo pela brisa o
movimento corrente da vida. E voava em círculos... Seu espírito, como um alazão
arredio, dominava os campos e trotava variando sempre o ritmo e a direção dos
seus desejos. Queria beijar a noite,
dançar com o tempo, amar com as chuvas e deitar seu cansaço curioso nos braços
do mundo. Toda a sua feitura, todo o seu contorno possuía cores intensas. Um
universo inteiro equilibrando-se entre a inocência e a loucura. Doce gosto
sentia na boca quando provava nos frutos o erro; quando sentia na pele o sopro
misterioso de ser antes mesmo de saber-se. Voava sobre si mesma entoando
sozinha a sinfonia emudecida que compunha a partir das dúvidas. E fazia dessa
mudez um regalo: a perfeição perdida. Mesmo sem saber, percebia que tudo era
início e que para si havia apenas um destino: o das aves e dos rios. Então voava.
Batendo suas asas. E ia. Descortinando os mistérios do chão já semeado, abrindo
com os dedos os lares fechados, povoando os ninhos e as varandas de afeto.
Voando, ia. Dançando cigana a meninice de seus olhos, mentindo o firmamento dos
céus e das lendas, tecendo e destecendo com destreza os seus próprios véus. Voava,
para si e para os outros, as suas próprias lonjuras, sentindo o frio tocar-lhe
o ventre e as lagrimas inundarem o rosto, mas ia. Passando, vivendo, tocando o
avesso dos dias, ia. Por baixos-relevos plainava, arriscando suas certezas com
uma doçura pagã. Voava e apenas voava. Querendo do Nada o Todo e do Todo apenas
o gosto das coisas. Voava, leve e alada os sonhos, as noites e o medo. As
sombras, as luzes e os jardins. Os nomes, as vidas e as casas. Era ela inteira
o vôo e com dedos de menina, com olhos de menina, movendo para os céus os seus
dias de cera e os seus canteiros de papoulas...
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