VENTO SANTO 09/09/2014
Nove horas da manhã.
Arrastei meu corpo entorpecido até o quintal. Os ossos doíam, gelados, a noite
mal dormida. Palpei os cigarros que estavam sobre a cabeceira da cama e ainda
com as meias de dormir nos pés, estendi pano na grama para ler a Montanha Mágica. Domingo. Sentia no ar o
cheiro da galinhada fervilhando na panela de barro em cima d'um avizinhado fogão
à lenha. Traguei intumescida, o cigarro recém-aceso, expandindo e expulsando no
sopro ocre do tabaco minhas banalidades. Abri o livro e busquei me concentrar.
Alheada, ouvi vozinha trêmula e bastante firme: Dia! Logo percebi que
tratava-se de dona Filomena divagando pelo jardim. Educadamente levantei os
olhos do livro retribuindo o cumprimento com um sorriso e um aceno de mão.
Minha saudação serviu de consentimento. Ao sorrir tinha selado um acordo, um
pacto, aceitando o convite que ela havia acabado de fazer quando me
cumprimentou: prosear. Fiquei observando seus passos dificultosos e perenes em
minha direção. Quando bem pertinho carinhosamente repreendeu-me: ô fia, feche
as janeias que hoje é dia de São Bartolomeu. Olhando para cima, ainda com o
sorriso no rosto perguntei: É mesmo dona Filomena, por quê? – meu sorriso já
não era uma cortesia. Estava fascinada, hipnotizada pela certeza que preenchia
os meus pulmões dormentes: não fazia ideia do que ganharia, naquele segundo
encantador, como presente e como resposta. Ué fia - ela respondeu - dia de São
Bartolomeu é dia de tempestade de vento, se você deixá tudo aberto é capaz de
caí até as paneia de cima do fogão...
Dona Filomena contou-me
ainda que a procissão sairia as três horas da tarde do quintal de seu Juca e seguiria
até a igrejinha destinada ao santo. Aconselhou-me. Disse que eu não deveria
deixar de ir. Alisando com as mãozinhas calejadas seus lisos e ralos cabelos
brancos ainda falou: fia, se eu ainda tivesse perna ia cocê caminhando na
procissão, mas a igreja é longe demais e eu num aguento mais não. Minha neta
mais veia, vem buscar eu de carro pra levar pra missa. Encontro com ocê lá! Dona
Filó ainda desabafou sobre as preocupações com Tupi, seu cãozinho. Disse não
saber mais o que fazer para impedir que continuasse comendo as galinhas, mas
que ia acender uma vela pra São Bartolomeu pedindo a graça. E depois desses
minutinhos de prosa ela foi se afastando devagar. Apertando contra o corpinho
miúdo e arqueado os braços cobertos pelo casaquinho lilás todo bordado, olhou-me ainda pela última vez. Uma brisa havia acabado de tocar seu rosto
e apontando o dedo para o céu, como se fosse versada nas mais antigas artes da
aeromancia, profetizou: Òia fia, ano passado a procissão saiu daqui, então é por
aqui que o vento vai começa, ocê sentiu? Já começou... vai logo fechar as
janeia.
E ventou. Ventou forte.
crismando a força das palavras da senhora benzedeira. Ventou. Primeiro dentro
de mim. Dona Filomena deu-me de presente, sem saber, a novidade que silencia.
Que retira a poeira dos ouvidos e do estômago. Que faz do dia-a-dia a poesia. Depois
ventou no quintal fazendo dançar as folhas das bananeiras preguiçosas e latir a
esmo, o Tupi. Ventou também dentro da casa, embolando os tapetes, derrubando os
quadros, batendo as portas e janelas em sinfonia desritmada. Vento. Devoto da
sabedoria, beato da doçura, ventando no puro estar aí. Vento-santo que cantou
novena no meu pranto e beijou-me os olhos remansados. Vento-benzedor, ventando desafinado
ensinando: que viver é nascer flor. Incerta. Amor na certeza do mais divino...
Nenhum comentário:
Postar um comentário