Amanhe'Cida
Aparecia. Aparecida mulher. Nossa? Senhora: de si. Ainda era
ela no espelho. Reconhecia em seus olhos o mesmo brilho: sua íris menina brincava
joeirando no terreiro, de pés no chão e laço de fita, semeando entre os
cotovelos punhado de vida. O sorriso estendia-se sobre as coisas do mundo
aveludando toda superfície. Ainda estava ali, mas sumida: guardada como um
livro de poemas que esquecido, nos esquece – cacifo - por dentro. Estava ali - relicário valedoiro - tão bela, mas polverosa.
Suas mãos mudas, murtas, muitas seguravam seus sonhos queixosos. E o caminhar
continuava perene, caduco, enternecido. Já não queria mais serenata. E já não
sabia mais – acrobata - viver a leveza de aurora outra. Outono? Vivia de regar:
irrigando florificado jardim, embebida em recôndito e maternal amor. Rebento. Era
toda ela mãe: bordados e suturas da Devoção.
Feitura de segredo: guardava-se para si mesma e dava-se apenas em socorro. Não se via, tinha jeitos severos consigo mesma. Precisava
harmonizar seu presente. Tudo era destino em seu horizonte glorificado. Não podia
para trás: há dias antes? Adiante. Se o tempo ia, ida esquecia-se da Criança que fora... tornando a sê-la. E criança
outra vez, amava sua consumida palidez dos tempos presentes: cantiga de ninar. Fruto maduro de polpa doce e fresca permanecia jovem ...Encantadoramente. Sempre Primavera, era toda cadente: candeia. Cantavam para ela suas flores, mas ela permanecia oculta, calando seus segredos: estava
sozinha. Gostava de ser só: como companhia apenas o céu – réstias de caminho já
iniciado e continuamente aberto. Deitava-se no terraço do Ser e de olhos fechados
inscrevia em seus fios sua esperança para entregar às três Marias: Turmalina,
Ivalina, Coralina. Fizera e refizera durante toda a vida seus regalos, dormindo
sob manto salpicado esperando amanhecer. E amanhecia, Tantas e tantas manhãs. Umas com chuva, outras de verão. E fazia a cama e o café e o não. E a manteiga e o pão e o sonho. Amanhecia. e o pescoço, e a boca, e as dores nas costas. E ouvia chamar a bravura e a coragem. Amanhecendo: esticando seu corpo entre o sol e o chão. Abrindo, rompendo, rasgando o todo de si, abraçando-se ao mundo: profundo. desmundo. vislumbro. Amanhecia... Apenas amanhecia: um marco. E Aventurava-se e tinha vontade de ficar. Amanhecia... Raiando o início e a alvorada... Amanhe'Cida.
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