quinta-feira, 18 de setembro de 2014

ENGARRAFAMENTO


Ia sem rumo. Com vestido leve pelo meio da avenida. Enfrentava os carros com os pés descalços na contramão. Era seu corpo, dormente, que caminhava. Estava viva?
Lembrou a madrugada. Assustou-se. Lembrou a infância e o amor que deixou morrer. Suspirou profundamente sua falta de certezas. Estava esgotada. Os carros roucos machucavam seus ouvidos confusos, imprimindo nela um estranho estado de transe e dispersão. Não se concentrava em sua dor. Nem ao menos sabia a origem. Mal podia se enxergar no meio de tantas luzes, sons e memórias. Sentiu uma dor intensa no estômago. Abandonou-se curvada sobre o ventre vazio. Por um instante lembrou que não havia almoçado naquele dia. Também não conseguira se alimentar no dia do batizado de seu filho. A imagem austera do padre e o agudo choro da criança que aprendera a amar pouco-a-pouco ocuparam intensamente seus pensamentos. Negou-os. Lembrou da louça que não havia lavado antes de sair de casa. O calor-exausto dos motores ligados sufocavam seus sentidos. Um homem careca e de bigodes, que estava com o braço esquerdo para fora da janela, enfiou a mão entre suas coxas desnudas, assediando-a, assim como cotidianamente são assediadas as prostitutas de esquinas desgracidas. Maluca! – Gritavam para ela. Seu corpo não sabia reagir, queria se defender, mas não tinha forças. Só conseguia caminhar, arremessando seu corpo de qualquer maneira entre os carros inertes. Embriagada e lúcida, o que sentia não era a dor dos que desistem. Ao contrário: estava grávida do mundo. Sua boca que jazia entreaberta deixou dançar em sua língua o gosto da cidade. Respirava fundo, aspirando para dentro de si o que não entendia. Passeava o dorso das mãos empoeiradas pelo rosto, comprimindo as bochechas, esfregando a testa, limpando os lábios até achar, no alto da cabeça, a origem de seus cabelos oleosos e embaraçados. Agarrava-se neles. Queria gritar, mas não conseguia. Lembrou do gato atropelado que vira, certa vez, no acostamento de uma rodovia durante uma viagem que fez a Santiago do Chile. Buzinas estrugiam por todos os lados. Estações de rádio e vozes surdas se espalhavam ao redor de seu corpo cansado. Suor. Poeira. Muito calor. Não prendia a atenção em nada que estava fora de seu corpo. Tudo era apenas dentro dela. Gestava suas próprias impressões do que é vivo. Criava suas imagens e gostos natimortos, mas cheios de beleza e ternura. Á-gua, Ó-lha a á-gua: gritava o menino, com um isopor dipindurado nos ombros, que caminhava na direção contrária a dela. Esperança. Desesperança. Sentia muita sede, mas sequer ouviu a voz repentiada do vendedor ambulante. O céu roseava, sonâmbulo o dia cansado. Lembrou do algodão-doce que dividiu com uma senhorinha, certa vez, na praça de sua cidade natal e da cana-de-açúcar plantada no quintal da casa de sua mãe. Uma moto que cortava ligeira, precisa e sinuosa as filas-metálicas-de-fumaça quase a atropelou. Caiu de joelhos. Os faróis a ameaçavam, cegando seus olhos molhados. Irritados e perdidos ... Retilíneos olhos cheios. Os carros engarrafados desafiavam sua força. Duros e aferrados eram a representação perfeita de seus monstros... de suas dores. Lembrou-se de Castorp  e de suas perguntas desconcertantes. Malditas! Ela gritou - conseguindo retomar o controle de seu corpo pela primeira vez desde que abandonara seu carro. Malditas! Repetia ajoelhada entre as rodas. Vendada pelas luzes que iluminavam caminho sinuoso, foi voltando, trôpega, para seu estado de transe. Tentava reorganizar-se. Mas como? Se era, ela mesma, o próprio silêncio. O mais profundo e aterrador. Não sabia mais encontrar sentido para seus pés. Continuou perdida entre suas memórias, queria reencontrar de maneira desesperada a ponta do fio que ligava seus sentidos as escolhas do mundo. Estava estafada. Não podia mais lutar consigo mesma. Sabia que nunca entenderia suas escolhas. Sabia que havia se distanciado demais das palavras. Não queria mais pensar. Era agora refém do mundo que significara para si mesma, numa tentativa de salvar-se do inóspito mundo que não soube acolhe-la. Ouvia cada vez mais perto o canto das sirenes. Se alguém pudesse olhar de cima, veria o baile de luzes, que espalhavam-se à esquerda e à direita, abrindo caminho para a primeira bailarina. No chão, continuava trêmula, silenciosa e preenchida de amor. Amava profundamente o inóspito. Queria amamentar em seus seios todos os seres e adocicar-lhes o ventre com o que tinha de mais vivo dentro de si: a compreensão ... Sentiu que braços fortes suspendiam seu corpo. Olhou para cima e viu rostos curiosos emoldurados por uma enorme caixa branca. Sorriu. E como se dela mesma nada pudesse, deixou que seu corpo fosse enjaulado. Trancafiado na caixa branca. Deitada e ainda confusa com a claridade da ambulância, sentiu-se imensamente segura. Sabia que não existia tempo, não existia sofrimento ou ferida que a pudessem matar. Andou sem medo pelo meio da avenida. De corpo e alma desnudada buscando, de si, liberdade desmedida. Andou por muitos corpos,  sonhos e desejos. E por um segundo percebeu que seu único crime era o seu segredo: do mundo carregar um jeito de querer em demasia.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

VENTO SANTO

VENTO SANTO 09/09/2014
Nove horas da manhã. Arrastei meu corpo entorpecido até o quintal. Os ossos doíam, gelados, a noite mal dormida. Palpei os cigarros que estavam sobre a cabeceira da cama e ainda com as meias de dormir nos pés, estendi pano na grama para ler a Montanha Mágica. Domingo. Sentia no ar o cheiro da galinhada fervilhando na panela de barro em cima d'um avizinhado fogão à lenha. Traguei intumescida, o cigarro recém-aceso, expandindo e expulsando no sopro ocre do tabaco minhas banalidades. Abri o livro e busquei me concentrar. Alheada, ouvi vozinha trêmula e bastante firme: Dia! Logo percebi que tratava-se de dona Filomena divagando pelo jardim. Educadamente levantei os olhos do livro retribuindo o cumprimento com um sorriso e um aceno de mão. Minha saudação serviu de consentimento. Ao sorrir tinha selado um acordo, um pacto, aceitando o convite que ela havia acabado de fazer quando me cumprimentou: prosear. Fiquei observando seus passos dificultosos e perenes em minha direção. Quando bem pertinho carinhosamente repreendeu-me: ô fia, feche as janeias que hoje é dia de São Bartolomeu. Olhando para cima, ainda com o sorriso no rosto perguntei: É mesmo dona Filomena, por quê? – meu sorriso já não era uma cortesia. Estava fascinada, hipnotizada pela certeza que preenchia os meus pulmões dormentes: não fazia ideia do que ganharia, naquele segundo encantador, como presente e como resposta. Ué fia - ela respondeu - dia de São Bartolomeu é dia de tempestade de vento, se você deixá tudo aberto é capaz de caí até as paneia de cima do fogão...
Dona Filomena contou-me ainda que a procissão sairia as três horas da tarde do quintal de seu Juca e seguiria até a igrejinha destinada ao santo. Aconselhou-me. Disse que eu não deveria deixar de ir. Alisando com as mãozinhas calejadas seus lisos e ralos cabelos brancos ainda falou: fia, se eu ainda tivesse perna ia cocê caminhando na procissão, mas a igreja é longe demais e eu num aguento mais não. Minha neta mais veia, vem buscar eu de carro pra levar pra missa. Encontro com ocê lá! Dona Filó ainda desabafou sobre as preocupações com Tupi, seu cãozinho. Disse não saber mais o que fazer para impedir que continuasse comendo as galinhas, mas que ia acender uma vela pra São Bartolomeu pedindo a graça. E depois desses minutinhos de prosa ela foi se afastando devagar. Apertando contra o corpinho miúdo e arqueado os braços cobertos pelo casaquinho lilás todo bordado, olhou-me ainda pela última vez. Uma brisa havia acabado de tocar seu rosto e apontando o dedo para o céu, como se fosse versada nas mais antigas artes da aeromancia, profetizou: Òia fia, ano passado a procissão saiu daqui, então é por aqui que o vento vai começa, ocê sentiu? Já começou... vai logo fechar as janeia.

E ventou. Ventou forte. crismando a força das palavras da senhora benzedeira. Ventou. Primeiro dentro de mim. Dona Filomena deu-me de presente, sem saber, a novidade que silencia. Que retira a poeira dos ouvidos e do estômago. Que faz do dia-a-dia a poesia. Depois ventou no quintal fazendo dançar as folhas das bananeiras preguiçosas e latir a esmo, o Tupi. Ventou também dentro da casa, embolando os tapetes, derrubando os quadros, batendo as portas e janelas em sinfonia desritmada. Vento. Devoto da sabedoria, beato da doçura, ventando no puro estar aí. Vento-santo que cantou novena no meu pranto e beijou-me os olhos remansados. Vento-benzedor, ventando desafinado ensinando: que viver é nascer flor. Incerta. Amor na certeza do mais divino...