Ia
sem rumo. Com vestido leve pelo meio da avenida. Enfrentava os carros
com os pés descalços na contramão. Era seu corpo, dormente, que
caminhava. Estava viva?
Lembrou
a madrugada. Assustou-se. Lembrou a infância e o amor que deixou
morrer. Suspirou profundamente sua falta de certezas. Estava
esgotada. Os carros roucos machucavam seus ouvidos confusos,
imprimindo nela um estranho estado de transe e dispersão. Não se
concentrava em sua dor. Nem ao menos sabia a origem. Mal podia se
enxergar no meio de tantas luzes, sons e memórias. Sentiu
uma dor intensa no estômago.
Abandonou-se curvada sobre o ventre vazio. Por um instante lembrou que não havia almoçado naquele dia. Também não conseguira se alimentar no
dia do batizado de seu filho. A imagem austera do padre e o agudo
choro da criança que aprendera a amar pouco-a-pouco ocuparam
intensamente seus pensamentos. Negou-os. Lembrou da louça que não
havia lavado antes de sair de casa. O calor-exausto dos motores ligados sufocavam seus sentidos.
Um homem careca e de bigodes, que estava com o braço esquerdo para
fora da janela, enfiou a mão entre suas coxas desnudas, assediando-a, assim como cotidianamente são assediadas as
prostitutas de esquinas desgracidas. Maluca! – Gritavam para ela.
Seu corpo não sabia reagir, queria se defender, mas não tinha
forças. Só conseguia caminhar, arremessando seu corpo de qualquer
maneira entre os carros inertes. Embriagada e lúcida, o que sentia
não era a dor dos que desistem. Ao contrário: estava grávida do
mundo. Sua boca que jazia entreaberta deixou dançar em sua língua o
gosto da cidade. Respirava fundo, aspirando para dentro de si o que
não entendia. Passeava o dorso das mãos empoeiradas pelo rosto,
comprimindo as bochechas, esfregando a testa, limpando os lábios até
achar, no alto da cabeça, a origem de seus cabelos oleosos e
embaraçados. Agarrava-se neles. Queria gritar, mas não conseguia.
Lembrou do gato atropelado que vira, certa vez, no acostamento de
uma rodovia durante uma viagem que fez a Santiago do Chile. Buzinas
estrugiam por todos os lados. Estações de rádio e vozes surdas se
espalhavam ao redor de seu corpo cansado. Suor. Poeira. Muito calor.
Não prendia a atenção em nada que estava fora de seu corpo. Tudo era
apenas dentro dela. Gestava suas próprias impressões do que é
vivo. Criava suas imagens e gostos natimortos, mas cheios de beleza
e ternura. Á-gua, Ó-lha a á-gua: gritava o menino, com um isopor
dipindurado nos
ombros, que caminhava na direção contrária a dela. Esperança.
Desesperança. Sentia muita sede, mas sequer ouviu a voz repentiada
do vendedor ambulante. O céu roseava, sonâmbulo o dia cansado.
Lembrou do algodão-doce que dividiu com uma senhorinha, certa
vez, na praça de sua cidade natal e da
cana-de-açúcar plantada no quintal da casa de sua mãe. Uma moto
que cortava ligeira, precisa e sinuosa as filas-metálicas-de-fumaça
quase a atropelou. Caiu de joelhos. Os faróis a ameaçavam, cegando
seus olhos molhados. Irritados e perdidos ... Retilíneos olhos
cheios. Os carros engarrafados desafiavam sua força. Duros e
aferrados eram a representação perfeita de seus monstros... de
suas dores. Lembrou-se de Castorp e de suas perguntas
desconcertantes. Malditas! Ela gritou - conseguindo retomar o
controle de seu corpo pela primeira vez desde que abandonara seu
carro. Malditas! Repetia ajoelhada entre as rodas. Vendada pelas
luzes que iluminavam caminho sinuoso, foi voltando, trôpega, para
seu estado de transe. Tentava reorganizar-se. Mas como? Se era, ela
mesma, o próprio silêncio.
O mais profundo e aterrador. Não sabia mais encontrar sentido para
seus pés. Continuou perdida entre suas memórias, queria
reencontrar de maneira desesperada a ponta do fio que ligava seus
sentidos as escolhas do mundo. Estava estafada.
Não podia mais lutar consigo mesma. Sabia que nunca entenderia suas
escolhas. Sabia que havia se distanciado demais
das palavras. Não queria mais pensar. Era agora refém do mundo que
significara para si mesma, numa tentativa de salvar-se do inóspito
mundo que não soube acolhe-la. Ouvia cada vez mais perto o canto
das sirenes. Se alguém pudesse olhar de cima, veria o baile de
luzes, que espalhavam-se à esquerda e à direita, abrindo
caminho para a primeira bailarina. No chão, continuava trêmula, silenciosa e
preenchida de amor. Amava profundamente o inóspito. Queria
amamentar em seus seios todos os seres e adocicar-lhes o ventre com o que tinha de mais
vivo dentro de si: a compreensão ... Sentiu que braços fortes
suspendiam seu corpo. Olhou para cima
e viu rostos curiosos emoldurados por uma enorme caixa branca.
Sorriu. E como se dela mesma nada
pudesse, deixou
que seu corpo fosse
enjaulado. Trancafiado na caixa branca. Deitada e ainda confusa com a claridade da ambulância, sentiu-se imensamente segura. Sabia que não existia tempo, não existia sofrimento ou ferida que
a pudessem
matar. Andou
sem medo pelo meio da avenida. De corpo e alma desnudada buscando, de si, liberdade
desmedida. Andou por muitos corpos, sonhos e desejos. E por um segundo percebeu que seu único crime era o seu segredo: do mundo carregar um jeito de querer em demasia.