à um grande amigo de estradas.
Rio
adentro.
Sendo nau e proa navegando a si mesma. De tudo queria o maior dos
segredos. Vento que movia os silêncios, deitando sobre a imensidão
das terras e das águas.
Fez-se
de uma solidão grave, dessas de cortar o nó das cordas. Sentada à
janela de si, se deixava passar sobre as coisas que de dentro não
cresciam. E feito um balão colorido subia céu acima – lentamente
- fecundando a barriga do mundo. Sua vida ofertava-se em trançadas
teceduras. Trabalhava seus longos dias em demoradas urdiduras, mas
antes de render-se aos encantos do
belo tecido, desfazia suas
tramas em harmoniosos
terreiros: deixando
correr, pela parte e pelo todo, pés descalços de crianças
sonhadeiras:
“Não
fascine seus olhos, deixe-os soltos em roda!”
Aconselhava-se
por saber que da Verdade muda do desconhecido sabemos quase pouco.
Quem
a olhava não podia ver: de tudo queria ao contrário e desnomeava, o
que vivo, aparecia nos caminhos. Até Pedra. Até Pensamento. Soube
durante muito tempo pronunciar cada alcunha com uma naturalidade
vivaz. Devagar é que as palavras foram se arrevoando em sua aurora,
como febre que desfaz o prumo em arrepios. Sentia mais que fazia e
sem perceber, foi sendo tomada por uma gagueira branca de quem perdeu
as certezas da vida. Desde que fora abandonada pela segurança que
faz do caminho destino, agarrou-se ao interdito e partiu:
desatentando, desfazendo, desenrolando o fio das coisas.
“Há
curiosidade movedora? Movediça.”
Talvez
essa fosse a sua única certeza e como se buscasse consolo punha-se a
caminhar: sempre em
frente, sem olhar para
trás...
Naquela
manhã, o céu ameaçava chuva. Mesmo assim, decidiu ir à praia. A
extensa faixa entre o asfalto e a espuma se deixava ver na
simplicidade do então: orla cheia. Mulheres e homens. Crianças
eriçadas feito pipa. Tudo de todo modo comum. Mas não era essa
trivialidade e repetição que a
atraia. Aos
seus olhos, existia algo de mágico nos desejos que se delineavam à
beira do mar: as areias labutando com o concreto diluíam, pouco a
pouco, em novos desenhos, o embolado de pessoas-ligeiras que
demasiadamente atentas. E devolvendo cores ao que jazia do mundo
encontrado demais para o erro, a praia talvez fosse o único lugar
onde ainda poderia salvar-se de si mesma.
...
Ah, o erro! Era nele que arguia
o sentido de sua existência. De alguma maneira percebia que a
grandeza da vida escorria pelas fendas do cotidiano e se mostrava nas
falhas - O Miraculo.
Aproximar-se das águas e caminhar sob os barulhos do vento era
também aproximar-se de
sua essência. Buscava
perder-se no tempo, arrependendo futuros passados: Seus sobrados
olhos deixavam para trás, todo o trecho onde os prédios faziam
frios retratos... E ia, peregrina: desacertando o lugar onde o
relógio lhe marcava a pele - Afundando seus pés na areia -
entornando Alma e nascendo a cada passo - fixando (com c’alma)
feito memória – durando suas marcas pelo caminho...
Há
pouco o céu tinha firmado sol. O calor liquefazia incomum em
miragens. Não tinha o costume de inverter seu caminho, mas algo a
chamava insistentemente pelas costas. Absorta, resistia aos apelos e
continuava andando com os olhos fixos no horizonte. Via a extensão
da orla marcada pelo pesar dos edifícios. Via ao fundo o início da
restinga: era lá que passava as tardes mergulhada nas leituras de
seu livro preferido: buscando baleias ao mar. Ler era o seu jeito de
não estar só. Nada poderia descrever o prazer que sentia quando
inabitada de gentes e cidades, perdia-se pelas estórias que não
eram uma... Mas o estranho calor que sentia na nuca, enfadava seus
pensamentos e Inundava - feito mar - seu corpo em suores e cansaços
que secavam a boca. Quanto mais caminhava, mais se alongavam as
distâncias do desvio ansiado. Seu corpo persistia sem forças. Por
que tudo parecia mais atrás que o de costume?
Experimentou apontar-lhe os joelhos. Estavam moles e giradiços,
tombando o peso das pernas. Tentou dar ânimo ao corpo, mas
estranhamente não conseguiu. Era
o calor, só podia ser o calor.
Nunca havia sentido tamanho mal estar, ao menos não se lembrava de
algo parecido. Mas não podia sentar, precisava antes alcançar vôo
e tocar no avesso do mundo. Precisava manter o caminho....
Por
um segundo, provou de uma incontrolável vontade de jogar-se nas
águas, entregando seu sal para purificar os sentidos. Mas antes
mesmo de tentar, rendeu-se ao sul. Seu corpo se espantou em
vertigens: mal podia acreditar no que só ela via...
E
a curva.
Sempre
ia à praia com seus pais, barraca de sol, canga, isopor, filtro
solar, irmão, cachorro e boné. A menininha guardava em seus olhos
bisbilhoteira vontade. Enquanto todos faziam as mesmas coisas, ela
tão pequena, sentia o mundo pelas mãos. Seu destino era se achar a
cada pergunta e se perder a cada resposta. Feito uma abelhinha que de
toda flor beijava o mel e de tudo queria saber mais que o nome:
_Mamãe,
issozinho qui, é o que?
_
É o seu umbigo filha.
_Imbigo?
E puique ele ta aqui no meio?
_Ah filha, porque ele ligava a
sua barriguinha na minha por uma corda que estourou quando você
nasceu.
_E puique ela estoiou mamãe?
E deixou um fuio? Imbigo devia chamá fuio, num é? Ou buiaco? Eu num
queia que a coda estoiasse mamãe. Qeuia ficá com você pa sempe!
Como
desejava um mundo que fosse só seu: onde as palavras dissessem o
sonho e que manga fosse só a de comer... Nunca brincou como as
outras crianças. Nasceu para miudezas. Podia passar horas observando
o cupinzeiro que fazia mosaicos barreados, no muro da casinhola onde
morava. às vezes, metia um furo com o dedinho gorducho no
serpentiado caminho de terra, pó e poeira: Fiz
um imbigo em você! Ponto! Agoia você já pode nasce!
E assim ia acendendo sua chama, branda e azualada. Fogueira de monte
e lenha grossa - tora de lei.
No
caminho para a praia, que ficava a alguma distância de onde
morava, a chuva banhou o céu mal tocando o chão. Servindo apenas
para deixar as vistas um manadeiro arco-íris. E o mundo que se
mostrava pequeno tomou gostos por infinito.
A menininha, que era de uma atenção encantada, nunca vira antes
algo tão bonito. Ligeira, pôs logo os seus olhinhos de formiga
vidrados na janela que cantaram toda nata e nota. Seu corpinho
gorducho foi tomando cores, apaixonado e trêmulo pela primeira vez:
_Mamãe,
qui isso nu céu?
_Que
lindo filha, é um arco-íris.
_Mamãe,
onde ele moia?
_Nas nuvens, filha. Ele fica
lá escondidinho e sempre que chove ele vem brincar com o sol. Ele é
filho do céu.
_Mamãe,
eu queio i lá binca com ele.
_Nós
vamos, filha. Ta
vendo onde ele termina? Lá é a praia. Quando chegarmos lá você
brinca.
A
menininha se transformou em esperanças e sonhosidades. Era tanta
imagem sem nome, tanto nome sem coisa que o seu corpinho se confundiu
e adormeceu. Também adormecera o arco-íris, desluzindo aos poucos
suas cores no céu...
Quando chegaram à praia a
menininha tagarelou em procuranças. Mal podia acreditar que a mãe
havia mentido pra ela. Olhava para todos os cantos do céu.
Vasculhava, sem pular uma, todas as nuvens que ainda estavam por
perto, mas não achava o arco-íris:
_
mamãe, cadê eie? Cadê eie, mamãe? eu já pocuiei em tudo, tudo,
tudo. Tudo, tudo, tudo, mas não encontei!
_
Filha, ele deve estar escondido atrás do morro. Ou então ele desceu
para brincar com você. Daqui a pouco ele aparece.
Foi quando a menininha resolveu avistar olhos para o chão. E como mágica, timidamente, um pedacinho de verde brilhou para ela na areia. E depois um laranja se mostrou. E um amarelo. Mal podia acreditar: Era o arco-íris! Tinha certeza! Devia estar escondido inteirinho por debaixo da areia. Sem tropeçar nos pensamentos correu para puxá-lo pelas pontas. Mas quando chegou mais perto viu que ele não estava escondido: estava quebrado! Partidinho em mil bocadinhos e cacos. Esperta como bico de mergulhão, não demorou em perceber o que tinha acontecido. O arco-íris devia ter arrebentado inteirinho quando desceu do céu para brincar com ela. Precisava então juntar suas partes. E sem que a mãe percebesse, ela saiu em marcha, catando os pedacinhos cilíndricos...
E
a curva.
Havia
algo de familiar naquela menininha... Tão
pequena e tão perdida.
Vestida só com a calcinha do biquíni, que era rosa no centro e nas
laterais babadinhos verde-musgo, vinha sorrateira em sua direção.
Tinha uma franjinha que caia sobre os olhinhos, espremidos entre a
testa pequena e as bochechas coradas de sol. Gordinha e
deliciosamente encantada, estava, entre todos os prazeres da praia,
catando canudinhos. A menininha, não queria castelos de areia ou
nadar, não queria picolés ou futebol, queria os esquecidos
canudinhos de plástico, já usados e baldios. As mãozinhas estavam
tão cheias que mal conseguia se equilibrar para pegar mais um.
Seu
corpo desacreditava os sentidos... Imediatamente se reconheceu em
espanto. Mas como
poderia ser? Ainda em
susto, foi se aproximando lentamente da criança, como
se estivesse indo ao seu próprio encontro:
remarcados pés sob
antigos caminhos...
Perto o suficiente, organizou a voz que sumira e perguntou:
_
Está perdida?
_
Eu to pocuiando o arco-íris pá devolve po céu.
Seus
ouvidos fizeram eco. A voz saia de dentro de si. Os joelhos
desentenderam-se de certo caindo tortos sobre as areias. Seu corpo
embaraçava. O barulho do mar girava os ouvidos e ardia nos olhos.
Era inteira Sal. Os braços enrijeciam, e antes que petrificassem,
estendeu suas trêmulas mãos ao encontro da menininha. Mas não
conseguia tocá-la. Os dedos duros rondavam o rostinho que fora
o que será
e que seria
o que é.
Medrosamente fechou os olhos, alcançando a testinha esquecida. E com
cuidado, retirou a franja melada de sol e sal dos olhinhos da
curuminha. As duas sorriram. E o mesmo brilho. E o mesmo dentinho
quebrado. E a mesma praia. E o
Tempo...
Tudo
fugia para dentro. Mar batendo forte contra a rocha das lembranças.
Queria o Mundo dizer. Queria à menininha tomar nos braços e levar
para casa, alimentar a boca e cuidar dos sonhos. Mas não conseguia:
estava petrificada.
Por
que era proibido olhar para trás?
A
menininha, que admirava o mundo com as mãos - e as mãos cheias do
arco-íris que caíra do céu para brincar – ficou triste ao vê-la
chorar:
_num choia não. Ele vai fica
bom!
_Sim abelinha, eu vou ficar
bem!
Seus
olhos alagados cerravam a cada palavra da menininha. Mas tanto amor
devolvia-lhe algum movimento. Com cuidado pôs-se a abrir as
mãozinhas gorduchas. De dentro, pegou os canudinhos. Em seguida,
abriu o livro no meio e colocou-os.
Depois pousou o livro no chão. Com delicadeza sentiu, nas suas, as
mãozinhas tão pequenas. E com todo o afeto que existia por dentro,
beijou as palminhas descalejadas:
_Sonhe
meu amor. Sonhe com intensidade e do mundo ache tudo. Você vai ver,
há muito o que cuidar nos caminhos, a começar pelo arco-íris...
_você
sabe cunsetá o dodói dele?
_São pedacinhos de ternura.
Só com carinho que se cola cada um deles. E isso leva tempo meu
amor. Tudo que quebra só colamos com belezas que encontramos aqui
dentro. E você é a maior delas. [como me esqueci de você]...
A
curuminha ouvia tudo atentamente. Parecia que sabia... Parecia
adivinhar... E o mesmo nariz. E a mesma manchinha no pescoço. E o
mesmo lugar. E o
Tempo...
Um
beijo da menininha se fez correr sobre sua pele, sobre seu arco,
sobre seus arredios pensamentos. Ainda ajoelhada e de olhos fechados,
levou as
mãos
até o beijo. Sentiu uma imensa doçura e uma enorme vontade de
abraçá-la. Mas não a viu mais. A pequena havia sumido porque o
relógio não parou de contar.
Era
uma descoberta?
A
vida se mostra no eterno instante do erro.
Nada
podia lhe dar mais do que aquela dormência muda do Ser
experimentada num breve encontro... Um presente. Dominar suas forças,
que comprimiam no peito todas as vozes do mundo, tornou-se
impossível. Exalava por todos os poros, o que nem Amor
podia dizer. Como viveria dessa estranha substância que se
apresentava fora do tempo, e que, no instante insurgente castrava a
linguagem castradora?
Durante
anos, buscou em tudo a contradição que lhe amordaçaria os
sentidos, para Integrar-se por inteira à matéria-mundo, mas só
conseguiu quando não sabia: se-encontrando-se-perdendo.
Poderia ficar eternamente Habitando esse lugar inexistente, porque
incompreensível. Mas voltou. Sempre voltava para si quando o
descobria. Existia demais para o ato da entrega. Na sua feitura ainda
havia em abundância a frágil palavra. E desconfiava: precisava se
transformar na própria mentira para viver. Silenciando para
sentir...
Abriu
os olhos. Por fora, tudo continuava igual. E lentamente, seu corpo
foi recuperando consciências. Estava novamente no mesmo lugar, de
onde nunca havia saído. Nas mãos ainda o mesmo livro, agora,
amarelado [e dentro os canudinhos]. Aprumando o norte - continuo
caminho, prosseguiu no andar. Fazendo de novo estrada para o céu -
em cores e águas.
E o sol. E a força. E a vertigem:
A
curva.
Como
um milagre, avistou uma mangueira, que solitária guardava os
segredos do chão. Seus olhos maculavam. Era
a árvore entre os edifícios.
Deitou sobre suas raízes, infanta e emocionada. Frondosa e inteira
sonhou sonhos impossíveis sob suas folhas. Ali, em um raro lugar
onde a vida nascia urgente...
Sou o maior
segredo do mundo! Meu alimento é o mistério.
E
ninguém nunca mais poderia enxergar o seu abismo.
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